Cuidados pós-vacina

É importante vacinar a maioria das pessoas em risco. Mas também é importante estar atento ao efeito Peltzman e ter mais cuidado até que o efeito da vacinação nos aproxime da imunidade de rebanho (em torno de 70 a 80% do mundo vacinado)

0
8
Foto Ilustrativa: Divulgação

Por Armando Salvatierra Barroso

Um amigo meu, colega de turma, conceituado professor de Pneumologia da Universidade Federal do Paraná, professor Rodney Frare e Silva, nos manda um artigo muito interessante que tenta explicar por que muitas pessoas foram infectadas com o coronavírus, após serem vacinadas. Refere-se ao efeito Peltzman.

Pensei em difundir usando praticamente todas as palavras do autor, pois poderia explicar e até ajudar a quem está abaixando a guarda, ou por achar que a pandemia está passando ou porque se acha seguro porque já se vacinou

O que é o efeito Peltzman? Sam Peltzman ensinou microeconomia em Chicago em 1988. O Efeito Peltzman é uma teoria que afirma que as pessoas são mais propensas a se envolver em comportamentos de risco quando medidas de segurança são obrigatórias. O Efeito Peltzman tem esse nome devido à postulação de Sam Peltzman sobre a obrigatoriedade do uso de cintos de segurança em automóveis – isso levaria a mais acidentes.

A percepção de segurança aumenta o apetite, aumenta a vontade de superar seus limites ao risco, porque se acha protegido. Ele nos conta que recebeu a seguinte mensagem de um colega amigo, que se lamenta: “Tratei milhares de pacientes com covid-19 nos últimos meses. Mas, depois de tomar a vacina, fiquei positivo para o vírus”. Pessoas relatando que foi vacinado em uma quinta-feira e ficou positivo para o vírus no sábado. Toda hora ouvimos histórias semelhantes

O que sabemos:
1. A imunidade contra a covid-19 não aumenta imediatamente após a primeira dose ou mesmo imediatamente após a segunda. A imunidade completa leva algumas semanas, após a segunda dose.

2. A imunidade não é absoluta. Mesmo após a vacinação completa, uma pessoa pode se infectar. No entanto, sua chance de morrer ou pegar uma infecção grave, que requeira hospitalização, será substancialmente menor, todavia não é 100%.

3. Nem todas as vacinas funcionam da mesma forma. A eficácia varia.

4. Nem todas as vacinas são eficazes contra todas as variantes. Muitas vacinas são menos eficazes contra o B1.351 (a variante sul-africana), por exemplo. Temos que aguardar mais estudos para saber o que poderá acontecer com outras variantes como a P1 de Manaus, que já se espalha pelo mundo.

Agora, o que é esse efeito Peltzman? E por que é importante saber disso? O efeito Peltzman significa um comportamento que compensa o risco percebido. Em outros termos, as pessoas se tornam mais cuidadosas quando sentem um risco maior e menos cuidadosas quando se sentem mais protegidas. Isso significa que as vacinas estão dando uma sensação de segurança que leva a um aumento do comportamento de risco.

Mas, o problema é que, embora as vacinas não forneçam proteção imediata ou proteção total (contra a infecção como contra a morte), a sensação de segurança, infelizmente, começa muito mais cedo, antes mesmo da injeção real. E o efeito Peltzman entra em ação: as pessoas usam máscaras com menos cautela, não se distanciam assim que chegam aos postos de vacinação ou na saída às ruas.

O efeito Peltzman de fato começou para a maioria das pessoas antes mesmo de elas tomarem a vacina. Muitas pessoas se sentiram protegidas só de olhar para os números da vacina. O uso de máscara, distanciamento social e higienização das mãos têm se tornado cada vez menos rigoroso. Embora isso seja atribuído principalmente à fadiga pandêmica, o efeito Peltzman não pode ser ignorado.

Embora esse comportamento seja perigoso para o público em geral, pode ser desastroso para profissionais de saúde que lidam diretamente com pacientes da covid-19. Muitos deles podem se infectar na segunda onda atual, prejudicando os serviços de saúde. O efeito Peltzman também é evidente no declínio drástico no uso de kits de equipamentos de proteção individual (EPIs) pelos profissionais de saúde.

É importante vacinar a maioria das pessoas em risco. Mas também é importante estar atento ao efeito Peltzman e ter mais cuidado até que o efeito da vacinação nos aproxime da imunidade de rebanho (em torno de 70 a 80% do mundo vacinado). Aqui está um exemplo definitivo em que espalhar a consciência salvará vidas. Por outro lado, esperamos que todos redobrem os cuidados. Encontros, almoços, festejos, abraços (menos ainda beijos) devem se postergados para épocas melhores. Não perderemos por esperar!

O autor é médico pediatra em Curitiba (PR)

PUBLICIDADE