Capixaba só se guia por ponto de referência

0
38
As populares "praça do Epa" e "avenida Beira Mar". Fotos: Divulgação

Endereço completo? Pode esquecer… Não adianta dizer que a reunião vai acontecer na avenida Marechal Mascarenhas de Morais… Talvez se você disser “avenida Beira Mar”, a coisa melhore. Mas, se falar que seu prédio fica “do lado da prefeitura, perto da churrascaria, perto de uma barraquinha que vende coco”, aí fica tudo mais fácil. E uma coisa que só o capixaba faz: manter a referência do endereço de pontos comerciais que nem existem mais: perto da Seidel, da Giacomin, da rua da Telest, da pracinha do Boa Praça, do Santa Marta. A loja já acabou, a empresa mudou de nome, mas a referência fica eterna.

Se perguntar ao capixaba de Vitória onde fica a praça Regina Frigeri Furno, ele irá te olhar com cara de espantado. Mas, se disser praça do Epa (supermercados), em Jardim da Penha, a informação vem com um largo sorriso. Vale o mesmo para as praças Philogomiro Lannes (praça da Flash Vídeo) e Aníbal Antero Martins (praça do Carone, supermercados). Pergunte a alguém qual é a avenida Anísio Fernandes Coelho. Se não disser rua da Lama ou rua do Bar do Pezão, ficará sem resposta. Também a avenida Saturnino Rangel Mauro é desconhecida, mas, se falar rua do Canal, aí fica fácil. Leiam alguns depoimentos divertidos no Facebook.

Viviane Martins Sacramento
Eu uso referência e sei os nomes das ruas. Não adianta você dizer o endereço: fica no cruzamento da Jerônimo Monteiro com Coronel Sodré. Se a pessoa não conhece, você fala que tem uma pastelaria de esquina. Eles acham… Não é gente com intelectual baixo… É facilitar a comunicação.

Fernanda Vello
Nossa, passei aperto na minha última visita. Levei uma encomenda e queria entregar. Pedi o endereço e ouvi muitas respostas: sabe o Carone? Não, não sou daqui. Me dê só o endereço. Ah, tá, fica na rua de trás da igreja Maranata. E assim foi a noite inteira. No final eu dei o número e rua de onde eu estava. Ela perguntou: “1.500 Gil Veloso? É perto de quê?”

Diego Huber
Verdade, a imensa maioria não conhece o nome das ruas, só as principais e próximas de sua própria casa. E os números, quando tem, são fora de ordem ou tem “antigo” e “novo”. Poucas placas, em mal estado ou escondidas. É mais fácil dizer que fica depois do quebra-molas do que dar o número, porque o proprietário não colocou número no muro. Tá colado numa pilastra do “terraço” lá no alto, invisível. Você também acaba achando mais rápido falando o nome da família que procura ou “perto do que” fica. Obvio que em todos os lugares também pedem ponto de referência, mas o principal é rua, número e bairro. No Espírito Santo tudo é o “ponto de referência “. Vivi 35 anos em Aracruz, Vitoria e Vila Velha e é exatamente assim:

(Na porta do Centro da Praia para um funcionário do shopping):

Onde fica a rua Madeira de Freitas?

Madeira de Freitas?

Isso.

(Pensa, põe a mão na cabeça, tira o boné, olha pra um lado, olha pro outro. Parece estar respondendo a uma pergunta muito difícil do vestibular).

Madeira de Freitas é difícil, né amigo? Tem alguma referência?

Rua Madeira de Freitas, 169
Assim não sei não senhor. Quem o senhor procura, é casa de família ou um comércio?

Maria da Silva.

Puxa vida, não conheço. Fica perto de quê?

Eu não sei, só tenho o endereço.

Ah, mas assim, sem ponto de referência fica, difícil.

Talvez com waze e Google Maps tenham passado a aprender mais o nome das ruas, mas normalmente era “a rua da padaria, na frente de uma castanheira, muro de pedra com portão amarelo e um cachorro malhado com uma orelha só”. Aí o povo acha.

Nem sonhe que alguém de Camburi vai saber se orientar no Centro (é “cidade”, pois pra capixaba centro é centro espírita) pelos nomes dos logradouros. Muito menos que alguém de Cariacica pode te situar em Vila Velha. Uma resposta muito frequente é: “Não sei, não sou daqui”. E você acha que o cara é de Goiás, mas ele quer dizer que não é de Bairro República, é de Jardim Camburi, então não tem obrigação de conhecer nada. Há sim um desconhecimento muito grande da cidade como um todo, na maioria dos casos. E quando conhece se guiam na maioria das vezes por pontos de referência, às vezes pontos que já nem tem mais, mas o capixaba ressuscita do nada: “Do lado do antigo IBEUV” e já nem existe mais Ibeuv ali nem em lugar algum da cidade.

Não acho que características como estas sejam defeito nem vejo como ofensa. Apenas é uma constatação de quem vem de fora e nunca ouviu dizer em outras regiões: “conzinha, saltar do ônibus, soltar do ônibus, ei (quando chega, em vez de oi)” e mil outras capixabices… A gente estranha, depois entende e por fim se adapta e até passa a usar, como a questão do “ponto de referência”, pois senão fica impossível conviver. Claro que uma ou outra pessoa não fala assim, não é geral. Nada é geral em lugar nenhum.

Denilza Falcão
Capixaba não vai no local por rua ou número, capixaba só vai nos lugares perto de quê, por isso que fui contra quando retiraram os cobradores de ônibus, pois eles nos ajudavam a saltar do coletivo pedindo para quanto chegar próximo a um lugar nos avisar.

PUBLICIDADE